Jairinho, Janires, Pimenta e …Rehder

Publicado: novembro 30, 2009 em Uncategorized

Meus amigos preciosos,

Acordei pensando na vida . E na morte. Abri os olhos considerando o quanto tudo é efêmero e vão, o quanto certas coisas não valem a pena: ressentimento, mágoa, disse-me-disse, ganhar e gastar dinheiro, carro novo, casa maior, cargo melhor, fama, prestígio, nome…tudo vaidade, tudo fumaça, tudo um-grande-nada!

Acabei de receber um email do Jorge Camargo, amigo do meu coração, me dizendo que a ficha ainda não caiu: “Perdemos o Rehder ! ”

Sim, queridos, perdemos o Rehder. Depois de perdermos o Jairinho e o Janires (acidentes automobilísticos) e Pimenta (câncer). Esses três gênios que, cada um a seu modo e visão, talento e vocação, MUDARAM O CULTO E A MÚSICA CRISTÃ EVANGÉLICA BRASILEIRA.

Jairinho, com o Paulo César da Silva, formou o Grupo Elo (pai do Logos, em 81,82…) e nos ensinou outro modo de fazer e cantar hinos, eu diria. Lembro do imenso impacto, em 1980, que o LP “Ouvi dizer” causou no meu coração de menino de 11 anos, aprendendo a tocar violão no Rio de Janeiro. A primeira apresentação do Logos no Rio, na PIB de Niterói, me tocou fundo a alma e o sonho. Janires? Esse me ensinou a compor com a mente e coração abertos, ollhando pelas janelas da vida, da cultura, sem amarras. Foi Jurado de um festival que participel em 1985, aos 15 anos e me incentivou “a continuar a fazer uma música que quase ninguém quer fazer.” Ouvi o Rebanhão em fita k7 artesanal, fazíamos passeatas evangelísticas no Centro do Rio, coisa doida de boa, que tempo!

Pimenta? O que dizer desse homem de Deus, esse gênio do simples-profundo, das melodias inesquecíveis, da poesia rebuscada mas acessível, bíblica, inspirada? Esse dividiu em antes e depois de si nosso canto. Sabem, o primeiro LP que comprei na vida, aos 12,13 anos de idade, foi “De vento em popa”. Ali conheci oPimenta, seu talento. Aliás, o Pimenta, o Guilherme, o Bomilcar, o tega… gente que Deus chamou pra formar toda uma geração de novos compositores, músicos e ministros de louvor (numa época que ninguém usava esse termo). A perda do Pimenta ainda foi mais traumática: 37 anos de idade! Os três nem chegaram aos 50, mas o Sérgio foi cedo demais!

O Rehder conheci em “Eram Doze “e nas muitas parcerias com o Gui. Versátil, leve, lírico, meio Boca Livre, Meio Ivan Lins, meio MPB, meio Hino, mas muito pessoal, muito variado, muito muita coisa. Depois o conheci e pasmei, ao ouvir dele: “Suas canções em ‘ Povo de Deus, povo missionario ‘ tem me abençoado demais. Posso cantá-las no Raízes? “Deus me faz cada uma! Aliás, acabei me tornando amigo da familia do Pimenta e, depois, do Rehder aqui em São Paulo, pouca, mas respeitosa, amorosa e cordial convivência, sobretudo em eventos, como a gravação do meu musical “A volta do Filho Pródigo”, o LOUVALE, quando viajamos juntos para SJ dos Campos lançar a cantata (última) que ele escreveu com o Guilherme Kerr, “Consola meu povo “, na qual cantei. honrado, uma canção (“Deus de justiça “) e o Sarau da Comuna,RJ, em mio desse ano, quando o vi pela última vez ministrar.  Ele chorou muito, já quebrantado pela realidade da sua enfermidade, ao ouvir minha canção “A chave é a oração”, na qual digo “Eu vi o coração de Deus/Era uma chaga aberta… inguém sofre igual a Deus/De saudade,  amor eterno … “.

É, uma chaga aberta a perda do Jairinho, do Janires, do Pimenta e, ainda não acredito direito, a perda do Rehder.

Escrevo essa meditação como um lamento. Escrevo para afirmar a mim mesmo: o que é a vida? ” A vida passa depressa e nós voamos”. (Salmo 90.10 )

Sim, a vida voa. Isso não é clichê, é fato.

Desisto de um monte de coisas. Desisto de desperdiçar meu caríssimo tempo com coisas inúteis, repito: ressentimento, mágoa, disse-me-disse, ganhar e gastar dinheiro, carro novo, casa maior, cargo melhor, fama, prestígio, nome…tudo vaidade, tudo fumaça, tudo um-grande-nada! Quero amar e ser amado, enquanto tiver o privilegio do amor. Quero abraçar e beijar meus filhos e minha mulher, comer com meus amigos , dando boas risadas. Cantar, pregar, compor, aconselhar, servir, viver, enfim, como pastor e músico a partir da verdade que há no meu coração de 40 anos. O lixo? Eu vou jogar no lixo.
Como disse meu querido Ariovaldo Ramos uma vez ( e fiz dessa frase um lema, agora revigorado e fortalecido ), “Quero lutar não pelo que dará certo, mas pelo que vale a pena. Pior que o idealismo da juventude é o cinismo da velhice. ”
É por isso que não quero perder tempo. A vida é agora. O dia, disse Jesus, é hoje. Com licença, vou viver.

Seu, de verdade.

 

Gérson Borges é pastor da Comunidade de Jesus em SBC, músico e poeta.

Meu amor e ódio por Rubem Alves

Publicado: novembro 30, 2009 em Uncategorized

“O problema com os inimigos do cristianismo é que, na maioria das vezes, estão certos nas suas críticas.”    Ed René Kivitz, num sermão

 

Amo Rubem Alves. Odeio Rubem Alves. Eu o amo nas suas verdades. Eu o odeio nas suas mentiras. Às vezes me confundo e inverto: amo quando deveria odiar e odeio quando deveria amar.

Verdades e mentiras igualmente belas fazem isto. Amo a Beleza das suas verdades, porque as verdades são sempre belas – como não amar o que é Belo? Odeio a feiúra das suas mentiras, se bem que há mentiras maravilhosas de se contemplar.

Por exemplo, uma vitrine: corpos falsos, os manequins. Prestígio falso o das roupas caríssimas. Status vergonhosamente irreal o das grifes. Mas a gente olha e olha e diz “que lindo!”

Amo quando ele diz coisas como: “O que enlouquece não é o trabalho forçado; é a falta de sentido.”[1] Amo essa célebre capacidade que ele tem de citar re-criando, re-inventando, parafraseando sem dizer que parafrasea, nesse caso, Dostoievski (“Recordações da casa dos mortos”).

Amo Rubem Alves porque faz sentido à falta de sentido com a qual ele recheia seus textos. É verdade. É sua alma falando. Outro exemplo de citação-recriadora, dessa vez sua (nossa) amada Adélia Prado: “Medo eu tenho de não ter mistérios”. [2] É por isso que ele cita Rilke e a gente baba: “Quem assim nos fascinou para que tivéssemos um olhar de despedida em tudo o que fazemos?”[3]

Amo essa capacidade de disfarçar no seu pensamento o pensamento dos outros, sem nos deixar com cara de gente que está sendo risível e destraidamente enganado por sua inteligência. Mas amo mesmo quando ele se supera na re-criação, rei da paráfrase: “Sou o que penso? Sou o que vejo. Meu corpo é do tamanho do meu olhar. Os olhos do poeta têm braços que vão até as estrelas.”[4]

Ah, sim, Adélia. Sobre sua (nossa) amada poeta-filósofa, ele diz: “Adélia é beata herética-erótica (…) eu sou protestante-apóstata.”[5]

Amo essa sinceridade odiável. Ou melhor seria odiar essa integridade amável? Pois então, coisas do coração, amar, odiar. O coração que ama é o mesmo que odeia. Amo Rubem Alves. Odeio Rubem. Eu o amo quando diz o que quero mesmo ouvir: verdades. Sejam quais e como forem eu o odeio quando diz mentiras que não quero ouvir. Ainda que sejam belas como toda a poesia do mundo. Mesmo que me encham os olhos e eu re-leia e re-leia e re-releia, literalmente encantado.

Amei “O sapo que queria ser príncipe” (Planeta, 2009) como amo quase tudo que ele escreve (verdade!) e odeio “O sapo que queria ser príncipe” do mesmo modo que odeio muito do que ele afirma (mentira!). Eis a minha ambivalência, um fã parecido com seu autor (quase) preferido. Para não ficar me repetindo ad nauseum nessa mal traçada resenha, Mitos & Verdades, ou se preferir, coisas que amei e odiei no maravilhoso/desprezível livro de memórias, sobretudo no que ele releta a respeito das coisas do pastorado:

1. ” Sermões chatos são evidência de que o pregador não acredita muito.”[6] VERDADE. A fé faz o olho do pregador brilhar e o coração do ouvinte arder – ambos de felicidade. Seja o tema do Sermão Isaías 53 ou um panfleto anti-religioso, como muitos textos de Rubem Alves, ótimo pregador, ainda que não chame de sermões seus sermões. Sermão (sermo, sermonis) é discurso argumentador/tivo. Sempre.

2. “O cristianismo não tem mensagem para as pessoas saudáveis, fortes e felizes. Gente forte e feliz não se converte”. [7] VERDADE (de novo, citando… dessa vez, seu amado e preferido Nietzsche, em “O Anticristo”). É por isso que a história da sua “conversão” não é história de uma conversão. Ele mesmo diz “não fui para a igreja por angústias existências. Fui para a igreja por que era gostoso”[8]. Pensando bem, isso é verdade para qualquer experiência de conversão (metanóia – mudança de mentalidade), seja religiosa ou não: quem vira ateu ou agnóstico é porque está doente, fraco e infeliz com a fé. Faz sentido?

3. “Homens de convicção não escutam, só falam. São movidos a certezas e exigem que os outros concordem.”[9] VERDADE. Como num congresso de Teologia em São Paulo quando, depois de ridicularizar Deus (literalmente) e o mundo (dos teólogos), terminou de falar e foi embora, sem ouvir nem o Boff nem outros preletores. Aliás, eu e Jorge Camargo – seus fãs bobocas – cantaríamos depois da fala dele. Para que ouvir quando se está certo de que “não há verdade absoluta” (exceto essa frase, claro). Para que ouvir os outros quando “tudo é relativo” (exceto essa outra frase, lógico).

4. “Todo o edifício do pensamento cristão é construído sobre a idéia do inferno ( … ) a teologia cristã é um edifício construído sobre o absurdo.” [10] MENTIRA. Todo o pensamento e a teologia do cristianismo estão edificados sobre a idéia da Graça e do Amor. Obviamente, existem centenas de milhares de teologias cristãs. A de Rubem Alves é uma delas. A minha é outra. Enquanto um experimentou o medo do inferno e o mal-estar do absurdo intelectual, outro pode experiementar a maravilha da Graça e a percepção do Inefável. Fé é da pessoa, pessoal. Nada de atacado, de reducionismos a granel, por favor. Isso é intelectualmente desonesto, poxa!

5. “O seminário é uma escola dominical que durava anos”[11] VERDADE. Falaram-me que a origem de “Seminário ” é a mesma de “Cemitério”. Preciso chegar nos meus baú de filologia… na prática pastoral que está aí, já está mais que (com) provado.

6. “O pastor é uma pessoa que não deixou de ser criança, continua abraçar o ursinho de pelúcia. Todas as coisas fracas são ursinhos de pelúcia.” [12] VERDADE. Isso é lindo em Rubem Alves, quando assume suas contradições. Ele que detesta ter sido pastor continua sendo pastor. Por isso seu afeto com as (frágeis) palavras. “O poeta”, diz Eugene Peterson, “é um pastor de palavras”.

7. “Sem a poesia, a imagem de pastor pode ser usada para designar uma profissão: um funcionário de uma empresa que administra, distribui e até vende “bens espirituais “. [13] VERDADE. Ah, se os lixeiros da Fé-pela-TV lessem isso… e se arrependessem!

8. “Van Gogh era filho de um pastor ( … ) Nietzsche era filho de um pastor.” [14] VERDADE. Dois loucos e geniais. Por que o primeiro comoveu-se com a pobreza dos crentes e o outro com fraqueza intelectual dos mesmos é coisa para o psicanalista Rubem Alves responder. Aliás, tanto Freud quando Jesus usaram a palavra Pai com um sentido novo e central. Os dois estavam certos.

9. “Detesto a palavra ‘eloquência’. Se fui eloquente num período da minha vida foi por imitação. Eloquência é o recurso sonoro que se emprega quando falta a mansidão da verdade.” [15] VERDADE. Mas se tem algo, um substantivo, que não se encaixa com as palavras que saem da boca (e das mãos) de Rubem Alves é mansidão! Sua voz é um rugido poderoso, um trovão traiçoeiro, cobra morde-mão. “Palavra enfeitiça. E palavra quebra-feitiço”, ele diz – a respeito das suas barulhentas-articuladas e, portando, eloquentes palavras. Sejam elas parte de um causo (história) ou de uma causa (argumento).

10. “Diante da tragédia, até os ateus dizem o nome de Deus”. [16] VERDADE. Dizer ‘Deus’ é dizer ‘Pai’ com mais, muito mais, força. Eu e Rubem Alves, todos nós, melhor dizendo, temos saudade do abraço do pai. O abraço do pai mora do fundo da nossa saudade.

Eu amo Rubem Alves. Eu o odeio. Odeio quando ele está certo. Amo quando ele está errado. Até um relógio quebrado tem uma hora (um segundo) que está certo. Ou estou errado?

 

Gérson Borges é leitor de gente que ele gosta e gente que ele não gosta.

Mas esta história de “odiar” é brincadeirinha: ódio é o trem mais perigoso da vida, como diria um mineiro. Ele ama Rubem Alves!

Jardim

Publicado: outubro 14, 2009 em Uncategorized

“Deus havia plantado um jardim no Éden, para os lados do Leste,

e ali colocou o homem que formara “

( Genesis 2.8 )

” Se toda a poesia numa palavra

Eu ficaria com JARDIM

E um tipo só de arbusto ali se lavra

O Alecrim “.

( Sobretudo quando chove, A Volta do Filho Pródigo )


No começo era um Jardim. Depois a Cidade. O primeiro jardim foi feito pelas mãos carinhosas de Deus. A primeira cidade, pelas mãos sujas de sangue de Caim. No Jardim de Deus havia Beleza ( ” árvores agradáveis aos olhos ” Gn 2.9 ) e Alimento ( “… e boa para se comer ” ). Na cidade de Caim, culpa, alienação, solidão, medo e uma peregrinação amaldiçoada – ele se refugia, exilado, na Terra de Node. Node , em hebraico, significa algo como ” peregrinação “. Que diferença do sentido de ” Éden “: עדן, prazer, deleite. Por que desde Caim preferimos vagar sem direção ou invés de desfrutar do prazer da comunhão – com Deus, conosco mesmo e com o outro?

Nesse feriadão de 12 de Outubro fomos para um Éden, uma acampamento em Tatuí, interior de São Paulo. Cerca de 150 pessoas, entre adultos e crianças. O verde do lugar, o ar puro, as caminhadas ao redor do lago, os mergulhos na ( água fria da ) piscina, comer juntos, cantar juntos, orar juntos, tudo foi aos poucos mudando nossa mente e coração de modo que o stress do dia-a-dia esfumaçado de Node foi saindo e a paz do Éden preenchendo os espaços vazios do coração.

Lá fez como nunca sentido a expressão do Livro de Gênesis ” Deus falava com o homem na viração do dia no Jardim do Éden ” . Que coisa arrebatadora mais arrebatadora é apreciar o entardecer e receber um abraço de Deus enquanto o sol bate o cartão !

É claro que não dá pra conversar pessoal e longamente mente com 150 pessoas, brincar com 150 pessoas, ter uma conversa de alma, olho-no-olho com 150 pessoas, mas puder fazer isso com alguns. Moreno, um adolescente novo na Comunidade. Que bom almoçar ao seu lado umas duas vezes, vê-lo brincar de coração com meu caçulinha,  Pablo. Zózimo e Magda, um casal que conhecia só de olhares nos Domingos comunitários. Seu humor e alegria ficarão comigos por semanas. A partilha da Lectio Divina em um pequeno grupo de 6, 7 pessoas me permitiu conhecer a Cleuza, uma senhora inteligente e cheia de vida ( não sei ainda sua idade : por fora, uns 60 e poucos . Pela convesa, mais jovem que muito jovem ). Apresentar meu amigo Tico, o pastor-preletor, aos amigos da Comunidade foi uma alegria à parte. Como é bom apresentar amigos à amigos. O Gustavo Bonisson e família já são parte da minha vida e da vida dos meus amigos. Amizade nova que parece velha de tão forte , de tão fácil, de tão boa. Ouvir um cd com o material que o Emerson está gravando om VPC. eu , ele e o Isaías no carro, um momento de eternidade. O choro do Ailton , no grupo pequeno do encerramento… Como não se maravilhar diante dos Sinais da graça?

O olhar de pastor é comprometido com o além das aparências.

Quando olhava para a multidão reunida, via casais que já estiveram meio ou muito rompidos adorando lado a lado, felizes.  Via amigos que abracei deprimidos e em crise de fé com as mãos erguidas em adoração ao Deus Triúno da Graça. Isso vale mais do que qualquer outra coisa – a alegria de experimentar Deus agindo na vida de gente que a gente ama. Alegria de pastor é alegria santa, amigos.

Mas o Jardim não deve ser geográfico. O Jardim  deve ser plantado nas redondezas da Alma.

O Jardim é dentro de mim, se eu cultivo as flores da espiritualidade, os arbustos da devoção, as árvores da comunhão verdadeira, profunda, sadia e calma. Nas sacadas da minha semana corrida, cultivarei um canteiro de rosas – os abraços que darei nos meus amigos. Nos quintais dos meus dias apertados semearei gerânios de orações simples e constantes. Nos caminhos das minhas jornadas diárias como pastor e pai, arrancarei as ervas daninhas que são : a pressa, a superficialidade, a falta de confissão, de descanso, de lazer – nem que seja ler o caderno de esportes no almoço, nem que seja dar uma volta olhando vitrines no fim da tarde, tomando um expresso na padaria em que eu chamo as pessoas pelo nome ( “Ed ! Antônio ! Rita ! Seu Martinho. Como estão as coisas? ” )

Pequenas sementes dão grandes árvores.

Que a árvore da santidade e a planta da sanidade, nosso tema lá, floresçam onde plantei : na terra arada, ainda que ressequida , na terra fertilizada, ainda que pelo meu choro, na terra da terra do meu coração.

Gerson

Criançando

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Luau

Luau 02

Singing

Artesãs

O Lago

Na sombra

Simão Pedro

Roda de amigos

( Aguardem mais fotos e textos – as de hoje foram feitas pelas Cinha – as das crianças – e pelo Dé Ferian. Obrigado! )

Ruina

Publicado: outubro 9, 2009 em Uncategorized

Acordei cedo hoje. Naquele momento estranhamente lúcido entre o ainda dormir e o já acordar, comecei a passar a semana a limpo, minha semana pastoral. As tarefas que realizei ( ou desisti ou adiei ) , as pessoas que encontrei ( ou não conseguir ver ou não puder ouvir ), o acampamento do fim de semana – e toda a adrenalina liberada no processo de planejamento e preparação ainda corre nas veias – tudo isso em 20 minutos piscando na tela da minha cabeça. Pensamentos produzem sentimentos. Me vi triste. Pensei na minha frustração em não ter podido servir mais e melhor meus amigos da Comunidade, gente que precisa de pastoreio e orientação espiritual, gente em perigo e à perigo, gente de Deus , minha gente. Falsa culpa? Tentação messiânica? Comecei a orar, ainda deitado. Foi uma breve prece: “Espírito Santo, sem sua ajuda não posso ajudar ninguém. A melhor coisa que posso fazer pelas pessoas é cuidar de mim. Ajuda-me, Espírito de Cristo a manter-me são, puro, coerente, digno, ajuda-me a ser gente, ajuda-me a ser pastor . Não posso resolver os problemas das pessoas, mas posso levá-las a Cristo. Mais do que falar de Cristo, ouvir… em Cristo ! “

Ao fazer esse oração simples, ato contínuo, peguei a Bíblia no criado-mudo. Todos ainda dormiam. Silêncio gostoso e convidativo. O texto da Lectio Divina para hoje é Lucas 14.11-23. Li com fome. Comi o texto, soboreando especialmente o verso 17 , quando Jesus afirma que ” Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado, e uma casa dividida contra si mesmoa cairá “. Que verdade contundente ! Jesus, como sempre, descreve a vida em termos muito lúcidos. Li essa semana em “O Jesus psicoterapeuta”, de Hanna Wolf, terapeuta junguiana e teóloga católica italiana, que ” Jesus conhecia muito bem os mecanismos construtivos e destrutivos da psiquê e dos relacionamentos humanos”. Ou seja, ele não teorizava a nosso respeito, ele nos descrevia. E curava.

Divisão. O pecado nos divide, nos separa – intra e inter-pessoalmente. Somos cada vez mais individualistas. “Farinha pouca, meu pirão primeiro. Você pra mim é problema seu. Me inclua fora dessa. ” Cada vez mais me dou conta do quanto as escolhas que fazemos nesse nosso modo de viver pós-moderno nos torna pessoas em-si-mesmadas, egoístas, incapazes de abrir mão da sua agenda egoísta. O casamento , por exemplo, não aguenta. Não há intersecção , convergência de projetos de vida, ninguém cede, ninguém abre mão. Cada vez mais,  0 casamento se revela um reino dividido. Dois senhores, duas soberanias, duas vontades. ” Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado, e uma casa dividida contra si mesmo cairá “.

Que Deus nos ajude a desmontar essa armadilha que na nossa, perdoem-me,  ganância consumista ( um carro melhor, uma casa melhor, mais segurança quanto ao futuro, mais conforto, mais estabilidadade – ? – mais status, mais , mais, mais … ) estamos montando para nós mesmos.  O casamentos assim, cada um na sua – e os filhos da de ninguém – é uma casa dividida. Cair é uma questão de tempo. A ruina é inevitável. Infelizmente. A não ser que as palavras de Jesus sejam ouvidas, acolhidas, vividas.

( a propósito, preciso parar. A Cinha precisa de mim. O caçula acordou. Ela vai levar o maior pra escola. Ou seja, eu depois, o outro agora. Casamento).

Quando eu voltar a ser criança

Publicado: outubro 2, 2009 em Uncategorized

” Naquela hora chegaram-se a Jesus os discípulos e perguntaram: Quem é o maior no reino dos céus?
Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles,  e disse: Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. “

Mateus 18.1-3


Dois judeus nos convidam a re-descobrir o olhar das crianças para a vida. O primeiro, Jesus. Essa afirmação de Jesus, ” A criança é o maior no Reino de Deus. Quem não se converter e se tornar como crianças não entrará nesse Reino ” é algo desconcertante. É uma subversão e tanta de valores. O maior é o menor. Grande é aquele que é pequeno.

Ontem brinquei com meu filhinho de dois anos, Pablo. Enquanto a mãe resolvia coisas no centro da cidade, nós:

1. olhamos formigas

2. jogamos futebol ( detalhe – com uma bola imaginária  ! )

3. tomamos uma ducha juntos – e desenhamos nos azulejos do banheiro com canetinhas apropriadas para essa farra

O mundo se torna outra coisa se visto pelos olhos de uma criança. Qualquer (pequena ) alegria se torna algo fenomenal se experimentado a partir da visão de mundo de um menino de dois anos. A felicidade é disponível para quem se contenta com ( tão ) pouco. Difícil é ser adulto.

O segundo,  um sujeito chamado Janusz Korczak, pseudônimo de Henryk Goldszmit, um brilhante médico , jornalista e educador polonês . ” Ele testemunhou a chegada do Wehrmacht (nome do exército alemão durante a segunda grande guerra) à Varsóvia. Quando os nazistas criaram o gueto de Varsóvia em 1940, seu orfanato foi obrigado a se mudar para dentro do gueto. Korczak foi junto, por sua vontade, para não abandonar suas crianças. No dia 5 de agosto (para alguns de 1942, soldados alemães levaram as cerca de 200 crianças que estavam no orfanato, aproximadamente 12 funcionários e Janusz Korczak para o campo de concentração de Treblinka. Não se tem claro o que aconteceu com Korczak após entrar no trem para Treblinka, o mais provável é que tenha morrido numa câmara de gás no campo de concentração.

Korczak escreveu um livro maravilhoso, “Quando eu voltar a ser criança “, não sei se inspirado pelas palavras do outro Judeu, Jesus ( Mt 18.1-3 ) que me faz pensar no mistério das coisas que são realmente valiosas e que nossos olhos contaminados pelas grandezas da vida adulta desprezam, evitam e descartam.

Há dois anos, quando falei sobre esse sujeito maravilhoso com um amiga, ela me respondeu com Adélia Prado , no poema O Homem Humano:


Se não fosse a esperança de que me aguardas com a mesa posta,o que
seria de mim eu não sei,
sem o Teu Nome
a claridade do mundo não me hospeda,
é crua luz crestante sobre ais.
Eu necessito por detrás do sol
do calor que não se põe e tem gerado meus sonhos,
na mais fechada noite, fulgurantes lâmpadas.
porque acima e abaixo e ao redor do que existe permaneces,
eu repouso o meu rosto nesta areia
contemplando as formigas, envelhecendo em paz
como envelhece o que é de amoroso dono.
O mar é tão pequenino diante do que eu choraria se não fosses meu Pai.
Ó Deus, ainda assim não é sem temor que eu Te amo, nem sem medo.


Santa Adélia! Benditas sejas as palavras que saem do seu coração !

Quando eu voltar a ser criança voltarei a  realmente desfrutar, entre outras muitas esquecidas ou desprezadas, do conforto e alento que há no colo do Pai.

ORAÇÃO: Querido Jesus, meu problema é ser adulto demais, sério demais, religioso demais, e não perceber que o dia está lindo lá fora, que o cheiro do bife no prato é gostoso demais pra  ser ignorado, que a energia gasta no ressentimento é muito maior que a gasta num abraço. Eu quero ser criança de novo, Jesus. E dizer “Oh ” diante de coisas como um borboleta azul na janela, um pôr-do-sol diferente no horizonte da tarde, um prédio inexplicavelmente alto no centro da cidade. Eu quero ser criança de novo. E chorar quando tiver vontade. Gritar quando sentir medo. Falar o que penso – pelo menos para as pessoas que amo. Eu quero ser criança de novo – e viver, ao invés de pensar em demasia, sorrir com alma, em vez de fazer a política da boa vizinhaça, lamber os beiços, se o doce de leite estiver realmente delicioso – e pedir mais, claro. Sinceramente, Amém.

( Ouça a canção “Dezoito “, que compus em parceria com Isaías de Oliveira e Tom Ferro e que gravei  com João Alexandre , Jorge Ervolini e Marcio Teixeira em “Nordestinamente “.

Gerson

De onde você me conhece?

Publicado: setembro 29, 2009 em Uncategorized

” Perguntou Natanael: De onde me conheces? “

( João 1. 48 )

A maior dificuldade no relacionamento humano  é conhecer  e ser conhecido. Vem antes de perdoar, de ajudar. Sem conhecer o outro tudo fica muito, mas muito mais difícil. Conhecer  e ser conhecido.Verdadeira, profunda e decididamente. Conhecimento assim pressupõe generosidade – há um preço a ser pago, entre outras “moedas”,  em termos de tempo. Tempo, esse bem valiosíssimo , esse tesouro dos tesouros. Conhecer e ser conhecido pelo outro sem que tempo seja gasto? Impossível.  tempo gasto em conversas sem pressa e sem pauta, em mesas sem culpa, em separado – quando a conversa é longa –  ou em ajuntamentos – quando se faz junto algo divertido . Tempo junto. Isso é o chão do conhecimento mútuo. Além disso, como conhecer alguém e ser devidamente conhecido sem vulnerabilidade? Ser vulnerável é descartar as máscaras inúteis , supostas defesas da reputação pessoal. Ser vulnerável é quase amar, se já não for. Sinceridade? É um fruto e um filho da vulnerabilidade. Quem não se desarma não se revela. Quem não tira a gravata , calça um par de chinelos velhos e convida pra um café na cozinha bagunçada ainda não sabe ser vulnerável.

Mas isso está ( quase ) soando meio conversa psicologizada de auto-ajuda … melhor pensar em Deus.

Deus me conhece de longe. Muito longe.

Antes do mundo ser mundo.

Antes do brilho da primeira estrela.

Antes do dia e noite iniciais.

Antes do antes do antes, Deus me conhecia e re-conhecia.

E conhecendo minha miséria e queda, meu desejo de ser só e de só ser

Sem Deus, sem graça, sem eira nem beira, ser humano,

Ele me amor. Pensou em mim. Gastou tempo nisso.

( Se bem que tempo pra Deus é coisa misteriosa demais . Mas fico com a idéia – é boa e ajuda :

Deus gastou tempo pensando em mim. Que coisa ! )

E então, ô susto, ô surpresa – a vulnerabilidade de Deus em Cristo.

Deus virou homem fraco pra que eu o conhecesse.

Deus tirou a coroa de Deus, desceu do trono de Deus, sem coroa, cetro, pompa.

Deus me conhece de longe e de muito. Ah, esse Deus!

Preciso parar e me ajoelhar. Não aguento. Aleluia.

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A Loucura do Evangelho ou o Evangelho da Loucura?

” As pessoas ficam loucas nas congregações/Uma por uma, uma por uma …”

Sting, All this time ( canção do állbum “The soul cages “)

” Não acredito que seja por acaso que a única diferença entre as palavras sanidade e santidade seja a letra “t”, que representa a cruz do Messias. Em última análise, é o amor que cura; o amor de Deus derramado em nossos corações e o amor do nosso próximo. Por essa razão a igreja é um lugar tão especial e precioso: é nela que o amor de Deus pode ser mediado por nossos irmãos e irmãs. A igreja tem a função de ser uma comunidade terapêutica, uma comunidade curadora. Deus nos chama para isso.

Esly Regina Carvalho , Saúde Emocional e Vida Cristã ( Ed. Ultimato )

Essa manhã conversei com uma brilhante estudande de jornalismo da ECA/USP, numa entrevista para o seu trabalho de conclusão de curso. Seu tema é a loucura; como é entendida peloa próprios doentes e pelos supostamente  sãos. Se é que há gente  sã … ela me procurou motivada por um artigo meu no portal Cristianismo Criativo ( ” Sobre artistas e loucos “), no qual discuto a noção de que a criatividade artística traria consigo componentes de ferida emocional ( Rubens Alves, O sapo que queria ser príncipe, Ed. Planeta ). Bem, não sou médico nem psicólogo. Mas sou artista. Sou pastor. As pessoas adoecem mentalmente por uma diversidade e tanta de causas. As doenças psíquicas são muitas e complexas. O assunto vai longe. O que quero partilhar é simplesmente a minha preocpupação pastoral e pessoal com o fato de que a igreja em muitos momentos , ao invés de promover a cura,  favorecer a doença.

As pessoas adoecem nos bancos dos templos por culpa religiosa – falsa ou real ( veja o que ensinou Paul Tournier, em Culpa e Graça ). No entanto , Tiago diz que confissão traz cura ( 5.16 ) Jung afirmou certa feita que ” o esvaziamento do confessionário católico tradicional pela Reforma teria ajudado na criação dos consultórios de psicoterapia “. As pessoas deixaram de falar de suas “loucuras” aos sacerdotes. Tiveram que procurar outros interlocutores, os terapeutas.

As pessoas enlouquecem nos bancos das comunidades religiosas pelo abuso de ( alguns ) líderes/pastores manipuladores e cínicos. Sim, isso é uma triste verdade, como denunciado no livro recente “Feridos em nome de Deus” ( Mundo Cristão ) , da jornalista Marília de Camargo César. Pastores que , literalmente, engordam da gordura das ovelhas e enriquecem da sua lã. No fim, as mesmas são sacrificadas no altar da decepção mais doída, o sentimento de terem sido usadas. Outro exemplo, católico, está no filme ” Sombras de Goya”, de Millos Forman. É visão da angústia do grande pintor espanhol diante do cinismo, mabição e maldade do influente Frei Lorenzo. O processo repugnante de tortura de uma jovem aristocrata nos deixa tontos… de raiva da Religião perversa do abuso e do Poder. No entando, nas páginas do Evangelho e do Novo Testamento, a proposta de Jesus foi libertação, justiça, cura, paz. A igreja de Atos promoveu uma revolução sem precedentes – por cuidar como ninguém cuidava, por acolher como niguém acolhia, por enfrentar subversiva e criativamente as estruturas da desigualde de então.

As pessoas enlouquecem nos bancos das igrejas, sejam elas quais forem, quando sua motivação não é Deus, mas os seus milagres: enriquecimento miraculoso e rápido, ascensão social, numa palavra – prosperidade. Quando isso não acontece, depois de tanto dinheiro doado, frustração ! Frustração é a mãe de uma nova classe de identidade religiosa nas planilhas do senso e nos dados dos institutos de pesquisa – “evangélicos não-praticantes”. Na verdade, essa gente nunca praticou o Evangelho. O Evangelho não tem nada a ver com a felicidade do dinheiro. A Boa Notícia de Jesus foi que, nele mesmo, todos somos aceitos por Deus como filhos amados, a quem ele disciplina em busca de transformação do caráter, não de conforto. Aliás, diz Eugene Peterson , ” Não vemos muitas pessoas ‘ felizes ‘ na Bíblia, mas muita gente que provou e vivenciou alegria e paz “( em O Pastor Contemplativo , Mundo Cristão ). Os citados em Hebreus 11 não me parecem muito “prosperos ” não, mas gente muito sã, gente lúcida, gente de fé.

As pessoas enlouquecem aos poucos e de modo crônico nos círculos religiosos por não lidar objetivamente com a realidade de suas vidas, muito pelo contrário, negando-as. A negação, um dos mecanismo de defesa teorizados por Freud, marca a nossa vida religiosa idealista.  Outro comportamento é o que ele chamou de “projeção”. O sujeito é um devasso , alimenta pensamentos sujos,impuros, lascivos em relação às jovens e senhoras da sua igreja, mas vive atacando a pornografia, a imoralidade dos namoros dos jovens etc . Que coisa triste trazemos dentro de nós, nossas contradições ! Paulo antecipou a psicanálise ao dizer ” Portanto, és inescusável, ó homem, qualquer que sejas, quando julgas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu que julgas, praticas o mesmo. “ ( Rm 2.1 ). Uma comunidade de gente “santa” de elevadíssimo padrões de ( falsa ) moral promove a doença emocional. Não tem jeito. No entanto, Jesus deixou claro que o pecado é uma questão do coração e que deve ser tratado nessa dimensão. Nada de aparência, de julgamentos fanfarrões, de dedo em riste. A Comunidade de seguidores de Jesus, gente sadia, sabe que ” quem não tem pecado pode atirar a primeira pedra”. O resto, por favor, fique quieto. ( Eu que o diga… dá vontade de parar de escrever ).

As pessoas enlouquecem nos “arraiais da Fé ” quando , frustradas em outras dimensões da vida, casamento e família, profissão e carreira, transferem para o projeto religioso a ( última ) possibilidade de realização e sucesso. Daí a igreja que tem de ser perfeita, onde tudo tem que  funcionar , todos precisam fazer tudo certinho e harmonioso todo o tempo, ” já que  “não podemos fazer qualquer coisa de qualquer jeito para Deus. Deus quer o melhor ! ”  Igrejas perfeitas? ” Quando você encontrar uma, não entre ou vai estragá-la ! “, comentou ironicamente o pastor e psicólogo Rob Bell.

Ah, não posso esquecer: pastores enlouquecem também. O messianismo esquizofrênico ( ” Vou resolver o problema de todos ! ” ). O sofrimento vocacional neurótico-suicida ( ” Deus me chamou pra trabalhar . O ministério é luta e dor. O Descanso é no céu ! “) . A negação da família, do lazer, do descanso. ( “As coisas de Deus vêm em primeiro lugar ! ). Minha amiga Roseli Kuhnrich de Oliveira, professora da EST, fez seu doutorado a partir de uma pergunta não tão óbvia assim: “Quem cuida de quem cuida? ” ( Cuidando de quem quida. Proposta de poimênica aos pastores e pastores. Diss. de Mestrado. São Leopoldo, RS: IEPG ) . A exaustão ministerial é a mãe de tumores e a fabricante de muitos túmulos. Pastores enlouquecem querendo cuidar de todos e agradar a todos. Que Deus me ajude !

Eu poderia continuar e continuar, mas lembrei do Gadareno ( Lucas 8.26-38 ). O Cristo que liberta o Gadareno, será que é esse o Cristo das nossas realidades espirituais e comunitárias?

É esse Cristo e esse tipo de Cristianismo que me interessa, capaz de libertar, curar gente chamada de louca e não de adoecer e escravizar gente sã. É esse Cristo e esse de tipo Cristianismo que eu busco, promotor de dignidade ( ” fazia muito tempo que ele não usava roupas”, v. 27 ), reconstrutor da família ( ” nem vivia em casa alguma ” ) agente de saúde mental ( ” mas vivia nos sepulcros “. Não quero afirmar nem negar que o Gadareno fosse louco. Mas ele estava endemoninhado, isto é, possuído no profundo da sua identidade psíquica-espiritual por demônios ( “Legião, por que muitos demônios haviam entrado nele “, v. 30 ). Nem todo louco é um possesso mas todo possesso vai enlouquecendo. A presença do Espírito de Deus traz saúde. A invasão das trevas traz enfermidade. Ponto. O que importa é o interesse de Jesus em promover sanidade, santidade, Shalom. Tanto na dimensão psíquica quanto social. Que diferença da Religião instituicional torta ( nem toda instituição é um inferno mas todo inferno é uma senhora instituição )  , com seus desvios e desvarios históricos, mandando prender, torturar, matar ( Inquisição Católica ) , mandando seduzir, estorquir, explorar ( Teologia da Prosperidade “evangélica “).

Duas palavras finais:

Sim, igreja é lugar de doentes. Jesus disse que veio cuidar de doentes ( Mateus 5.31 ) Mas vamos reconhecer nossas enfermidades, incoerências e mazelas. Vamos chamar de pecado o nosso pecado. Vamos abandonar a demonização da terapia, do remédio psiquiátrico. Depressão é doença, não é demônio! Parece incrível mas ainda encontro quem sinta-se mal com a idéia de … procurar um psicólogo ao invés de uma reunião de Cura e Libertação.

Sim à Loucura do Evangelho ( Paulo, em 1 Cor 1.18-25 ). Não ao  “evangelho da Loucura”. Escrevo sobre isso não por estar fora desse ambiente mas por inadequação e fraqueza. Que Deus me guarde … de mim !

Com temor e tremor.

Gerson Borges