Quando eu voltar a ser criança

Publicado: outubro 2, 2009 em Uncategorized

” Naquela hora chegaram-se a Jesus os discípulos e perguntaram: Quem é o maior no reino dos céus?
Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles,  e disse: Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. “

Mateus 18.1-3


Dois judeus nos convidam a re-descobrir o olhar das crianças para a vida. O primeiro, Jesus. Essa afirmação de Jesus, ” A criança é o maior no Reino de Deus. Quem não se converter e se tornar como crianças não entrará nesse Reino ” é algo desconcertante. É uma subversão e tanta de valores. O maior é o menor. Grande é aquele que é pequeno.

Ontem brinquei com meu filhinho de dois anos, Pablo. Enquanto a mãe resolvia coisas no centro da cidade, nós:

1. olhamos formigas

2. jogamos futebol ( detalhe – com uma bola imaginária  ! )

3. tomamos uma ducha juntos – e desenhamos nos azulejos do banheiro com canetinhas apropriadas para essa farra

O mundo se torna outra coisa se visto pelos olhos de uma criança. Qualquer (pequena ) alegria se torna algo fenomenal se experimentado a partir da visão de mundo de um menino de dois anos. A felicidade é disponível para quem se contenta com ( tão ) pouco. Difícil é ser adulto.

O segundo,  um sujeito chamado Janusz Korczak, pseudônimo de Henryk Goldszmit, um brilhante médico , jornalista e educador polonês . ” Ele testemunhou a chegada do Wehrmacht (nome do exército alemão durante a segunda grande guerra) à Varsóvia. Quando os nazistas criaram o gueto de Varsóvia em 1940, seu orfanato foi obrigado a se mudar para dentro do gueto. Korczak foi junto, por sua vontade, para não abandonar suas crianças. No dia 5 de agosto (para alguns de 1942, soldados alemães levaram as cerca de 200 crianças que estavam no orfanato, aproximadamente 12 funcionários e Janusz Korczak para o campo de concentração de Treblinka. Não se tem claro o que aconteceu com Korczak após entrar no trem para Treblinka, o mais provável é que tenha morrido numa câmara de gás no campo de concentração.

Korczak escreveu um livro maravilhoso, “Quando eu voltar a ser criança “, não sei se inspirado pelas palavras do outro Judeu, Jesus ( Mt 18.1-3 ) que me faz pensar no mistério das coisas que são realmente valiosas e que nossos olhos contaminados pelas grandezas da vida adulta desprezam, evitam e descartam.

Há dois anos, quando falei sobre esse sujeito maravilhoso com um amiga, ela me respondeu com Adélia Prado , no poema O Homem Humano:


Se não fosse a esperança de que me aguardas com a mesa posta,o que
seria de mim eu não sei,
sem o Teu Nome
a claridade do mundo não me hospeda,
é crua luz crestante sobre ais.
Eu necessito por detrás do sol
do calor que não se põe e tem gerado meus sonhos,
na mais fechada noite, fulgurantes lâmpadas.
porque acima e abaixo e ao redor do que existe permaneces,
eu repouso o meu rosto nesta areia
contemplando as formigas, envelhecendo em paz
como envelhece o que é de amoroso dono.
O mar é tão pequenino diante do que eu choraria se não fosses meu Pai.
Ó Deus, ainda assim não é sem temor que eu Te amo, nem sem medo.


Santa Adélia! Benditas sejas as palavras que saem do seu coração !

Quando eu voltar a ser criança voltarei a  realmente desfrutar, entre outras muitas esquecidas ou desprezadas, do conforto e alento que há no colo do Pai.

ORAÇÃO: Querido Jesus, meu problema é ser adulto demais, sério demais, religioso demais, e não perceber que o dia está lindo lá fora, que o cheiro do bife no prato é gostoso demais pra  ser ignorado, que a energia gasta no ressentimento é muito maior que a gasta num abraço. Eu quero ser criança de novo, Jesus. E dizer “Oh ” diante de coisas como um borboleta azul na janela, um pôr-do-sol diferente no horizonte da tarde, um prédio inexplicavelmente alto no centro da cidade. Eu quero ser criança de novo. E chorar quando tiver vontade. Gritar quando sentir medo. Falar o que penso – pelo menos para as pessoas que amo. Eu quero ser criança de novo – e viver, ao invés de pensar em demasia, sorrir com alma, em vez de fazer a política da boa vizinhaça, lamber os beiços, se o doce de leite estiver realmente delicioso – e pedir mais, claro. Sinceramente, Amém.

( Ouça a canção “Dezoito “, que compus em parceria com Isaías de Oliveira e Tom Ferro e que gravei  com João Alexandre , Jorge Ervolini e Marcio Teixeira em “Nordestinamente “.

Gerson

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