A Loucura do Evangelho ou o Evangelho da Loucura?

Publicado: setembro 25, 2009 em Uncategorized

A Loucura do Evangelho ou o Evangelho da Loucura?

” As pessoas ficam loucas nas congregações/Uma por uma, uma por uma …”

Sting, All this time ( canção do állbum “The soul cages “)

” Não acredito que seja por acaso que a única diferença entre as palavras sanidade e santidade seja a letra “t”, que representa a cruz do Messias. Em última análise, é o amor que cura; o amor de Deus derramado em nossos corações e o amor do nosso próximo. Por essa razão a igreja é um lugar tão especial e precioso: é nela que o amor de Deus pode ser mediado por nossos irmãos e irmãs. A igreja tem a função de ser uma comunidade terapêutica, uma comunidade curadora. Deus nos chama para isso.

Esly Regina Carvalho , Saúde Emocional e Vida Cristã ( Ed. Ultimato )

Essa manhã conversei com uma brilhante estudande de jornalismo da ECA/USP, numa entrevista para o seu trabalho de conclusão de curso. Seu tema é a loucura; como é entendida peloa próprios doentes e pelos supostamente  sãos. Se é que há gente  sã … ela me procurou motivada por um artigo meu no portal Cristianismo Criativo ( ” Sobre artistas e loucos “), no qual discuto a noção de que a criatividade artística traria consigo componentes de ferida emocional ( Rubens Alves, O sapo que queria ser príncipe, Ed. Planeta ). Bem, não sou médico nem psicólogo. Mas sou artista. Sou pastor. As pessoas adoecem mentalmente por uma diversidade e tanta de causas. As doenças psíquicas são muitas e complexas. O assunto vai longe. O que quero partilhar é simplesmente a minha preocpupação pastoral e pessoal com o fato de que a igreja em muitos momentos , ao invés de promover a cura,  favorecer a doença.

As pessoas adoecem nos bancos dos templos por culpa religiosa – falsa ou real ( veja o que ensinou Paul Tournier, em Culpa e Graça ). No entanto , Tiago diz que confissão traz cura ( 5.16 ) Jung afirmou certa feita que ” o esvaziamento do confessionário católico tradicional pela Reforma teria ajudado na criação dos consultórios de psicoterapia “. As pessoas deixaram de falar de suas “loucuras” aos sacerdotes. Tiveram que procurar outros interlocutores, os terapeutas.

As pessoas enlouquecem nos bancos das comunidades religiosas pelo abuso de ( alguns ) líderes/pastores manipuladores e cínicos. Sim, isso é uma triste verdade, como denunciado no livro recente “Feridos em nome de Deus” ( Mundo Cristão ) , da jornalista Marília de Camargo César. Pastores que , literalmente, engordam da gordura das ovelhas e enriquecem da sua lã. No fim, as mesmas são sacrificadas no altar da decepção mais doída, o sentimento de terem sido usadas. Outro exemplo, católico, está no filme ” Sombras de Goya”, de Millos Forman. É visão da angústia do grande pintor espanhol diante do cinismo, mabição e maldade do influente Frei Lorenzo. O processo repugnante de tortura de uma jovem aristocrata nos deixa tontos… de raiva da Religião perversa do abuso e do Poder. No entando, nas páginas do Evangelho e do Novo Testamento, a proposta de Jesus foi libertação, justiça, cura, paz. A igreja de Atos promoveu uma revolução sem precedentes – por cuidar como ninguém cuidava, por acolher como niguém acolhia, por enfrentar subversiva e criativamente as estruturas da desigualde de então.

As pessoas enlouquecem nos bancos das igrejas, sejam elas quais forem, quando sua motivação não é Deus, mas os seus milagres: enriquecimento miraculoso e rápido, ascensão social, numa palavra – prosperidade. Quando isso não acontece, depois de tanto dinheiro doado, frustração ! Frustração é a mãe de uma nova classe de identidade religiosa nas planilhas do senso e nos dados dos institutos de pesquisa – “evangélicos não-praticantes”. Na verdade, essa gente nunca praticou o Evangelho. O Evangelho não tem nada a ver com a felicidade do dinheiro. A Boa Notícia de Jesus foi que, nele mesmo, todos somos aceitos por Deus como filhos amados, a quem ele disciplina em busca de transformação do caráter, não de conforto. Aliás, diz Eugene Peterson , ” Não vemos muitas pessoas ‘ felizes ‘ na Bíblia, mas muita gente que provou e vivenciou alegria e paz “( em O Pastor Contemplativo , Mundo Cristão ). Os citados em Hebreus 11 não me parecem muito “prosperos ” não, mas gente muito sã, gente lúcida, gente de fé.

As pessoas enlouquecem aos poucos e de modo crônico nos círculos religiosos por não lidar objetivamente com a realidade de suas vidas, muito pelo contrário, negando-as. A negação, um dos mecanismo de defesa teorizados por Freud, marca a nossa vida religiosa idealista.  Outro comportamento é o que ele chamou de “projeção”. O sujeito é um devasso , alimenta pensamentos sujos,impuros, lascivos em relação às jovens e senhoras da sua igreja, mas vive atacando a pornografia, a imoralidade dos namoros dos jovens etc . Que coisa triste trazemos dentro de nós, nossas contradições ! Paulo antecipou a psicanálise ao dizer ” Portanto, és inescusável, ó homem, qualquer que sejas, quando julgas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu que julgas, praticas o mesmo. “ ( Rm 2.1 ). Uma comunidade de gente “santa” de elevadíssimo padrões de ( falsa ) moral promove a doença emocional. Não tem jeito. No entanto, Jesus deixou claro que o pecado é uma questão do coração e que deve ser tratado nessa dimensão. Nada de aparência, de julgamentos fanfarrões, de dedo em riste. A Comunidade de seguidores de Jesus, gente sadia, sabe que ” quem não tem pecado pode atirar a primeira pedra”. O resto, por favor, fique quieto. ( Eu que o diga… dá vontade de parar de escrever ).

As pessoas enlouquecem nos “arraiais da Fé ” quando , frustradas em outras dimensões da vida, casamento e família, profissão e carreira, transferem para o projeto religioso a ( última ) possibilidade de realização e sucesso. Daí a igreja que tem de ser perfeita, onde tudo tem que  funcionar , todos precisam fazer tudo certinho e harmonioso todo o tempo, ” já que  “não podemos fazer qualquer coisa de qualquer jeito para Deus. Deus quer o melhor ! ”  Igrejas perfeitas? ” Quando você encontrar uma, não entre ou vai estragá-la ! “, comentou ironicamente o pastor e psicólogo Rob Bell.

Ah, não posso esquecer: pastores enlouquecem também. O messianismo esquizofrênico ( ” Vou resolver o problema de todos ! ” ). O sofrimento vocacional neurótico-suicida ( ” Deus me chamou pra trabalhar . O ministério é luta e dor. O Descanso é no céu ! “) . A negação da família, do lazer, do descanso. ( “As coisas de Deus vêm em primeiro lugar ! ). Minha amiga Roseli Kuhnrich de Oliveira, professora da EST, fez seu doutorado a partir de uma pergunta não tão óbvia assim: “Quem cuida de quem cuida? ” ( Cuidando de quem quida. Proposta de poimênica aos pastores e pastores. Diss. de Mestrado. São Leopoldo, RS: IEPG ) . A exaustão ministerial é a mãe de tumores e a fabricante de muitos túmulos. Pastores enlouquecem querendo cuidar de todos e agradar a todos. Que Deus me ajude !

Eu poderia continuar e continuar, mas lembrei do Gadareno ( Lucas 8.26-38 ). O Cristo que liberta o Gadareno, será que é esse o Cristo das nossas realidades espirituais e comunitárias?

É esse Cristo e esse tipo de Cristianismo que me interessa, capaz de libertar, curar gente chamada de louca e não de adoecer e escravizar gente sã. É esse Cristo e esse de tipo Cristianismo que eu busco, promotor de dignidade ( ” fazia muito tempo que ele não usava roupas”, v. 27 ), reconstrutor da família ( ” nem vivia em casa alguma ” ) agente de saúde mental ( ” mas vivia nos sepulcros “. Não quero afirmar nem negar que o Gadareno fosse louco. Mas ele estava endemoninhado, isto é, possuído no profundo da sua identidade psíquica-espiritual por demônios ( “Legião, por que muitos demônios haviam entrado nele “, v. 30 ). Nem todo louco é um possesso mas todo possesso vai enlouquecendo. A presença do Espírito de Deus traz saúde. A invasão das trevas traz enfermidade. Ponto. O que importa é o interesse de Jesus em promover sanidade, santidade, Shalom. Tanto na dimensão psíquica quanto social. Que diferença da Religião instituicional torta ( nem toda instituição é um inferno mas todo inferno é uma senhora instituição )  , com seus desvios e desvarios históricos, mandando prender, torturar, matar ( Inquisição Católica ) , mandando seduzir, estorquir, explorar ( Teologia da Prosperidade “evangélica “).

Duas palavras finais:

Sim, igreja é lugar de doentes. Jesus disse que veio cuidar de doentes ( Mateus 5.31 ) Mas vamos reconhecer nossas enfermidades, incoerências e mazelas. Vamos chamar de pecado o nosso pecado. Vamos abandonar a demonização da terapia, do remédio psiquiátrico. Depressão é doença, não é demônio! Parece incrível mas ainda encontro quem sinta-se mal com a idéia de … procurar um psicólogo ao invés de uma reunião de Cura e Libertação.

Sim à Loucura do Evangelho ( Paulo, em 1 Cor 1.18-25 ). Não ao  “evangelho da Loucura”. Escrevo sobre isso não por estar fora desse ambiente mas por inadequação e fraqueza. Que Deus me guarde … de mim !

Com temor e tremor.

Gerson Borges

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comentários
  1. Jonas Sousa disse:

    Gerson,
    é um alivio e uma fonte de renovação da esperança sua mensagem num ambiente tão adoecido e enlouquecido, pela falta da Loucura do Evangelho. Que Deus seja contigo e fazendo-o prosperar tal quão próspera é a tua alma! Abraços,

  2. Samuca disse:

    Olá, gostei muito de seus artigos, gostaria de te convidar para partipar de uma rede de troca de conteúdo, para mais detalhes me adiciona no msn co_herdeiro@hotmail.com ou me manda um email ok. Abraços. Samuel

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